Como estão as finanças?

Como estão as finanças?

Especialistas explicam como a organização é fundamental para ter um bom controle financeiro do negócio e o que fazer quando houver dificuldades

 

Uma das maiores lições que a pandemia do novo coronavírus trouxe de forma global é que todas as empresas deveriam ter uma reserva financeira, independentemente do porte. Com ela se torna muito mais fácil superar as emergências e manter a empresa segura por determinado tempo até as coisas melhorarem. Quando a empresa não tem nenhum capital guardado é muito provável que ocorra demissão de funcionários, inadimplência com fornecedores, o não pagamento de custos essenciais, como aluguel, água, luz, e em alguns casos até a falência do negócio.

Segundo um levantamento nacional da Boa Vista, principal analista do mercado de crédito no Brasil, no primeiro semestre de 2020, os pedidos de falência avançaram 34,2%, os de recuperação judicial, 32,8%, e as recuperações judiciais deferidas, 45,3%,  em relação ao mesmo período do ano passado. No caso das papelarias, por exemplo, muitas acabaram não resistindo e tiveram que fechar as portas justamente pela falta de organização das finanças durante esse período crítico. Controlar o que entra e o que sai de dinheiro pode parecer fácil, mas para a maioria das pessoas e das empresas não é bem assim que funciona.

Em momentos de crise, segundo Daniel Menezes, sócio da Rianelli Melo Soluções Contábeis, do Rio de Janeiro, os principais motivos que levam os empresários do ramo varejista a encontrarem dificuldades financeiras são a falta de fluxo de caixa e a falta de organização do dinheiro, além das questões estratégicas da empresa, como o baixo investimento em marketing e a má gestão de compras. “O que acontece também é a compra de mais material do que o necessário, o não pagamento a fornecedores dentro de um período planejado ou até a retirada de muito dinheiro dentro de pouco tempo. Muitas empresas vendem bem, mas não têm dinheiro. Isso acontece porque vendem parcelado e pagam à vista, não procuram melhores condições de compra, de tempo, de prazo. É aquele famoso ‘tem dinheiro, mas não tem’, porque ele está preso em mercadoria e não no caixa para pagar funcionário ou até mesmo aproveitar uma promoção”, comenta.

Para Keylla Dennyse, contadora e professora da Estácio Brasília, o fato das empresas varejistas estarem muito alavancadas no momento da crise, ou seja, com um volume muito alto de estoque, com custo de manutenção muitas vezes elevado, e vivenciando a redução do consumo, o que diminui o giro e consequentemente o fluxo de caixa, são fatores importantes que influenciam diretamente na gravidade das dificuldades financeiras. “Na pandemia foi preciso lidar ainda com o aumento do endividamento e entraves operacionais como a perda de fornecedores que também foram afetados”, relata.

Raphael Brocchi, coordenador do MBA em finanças e da pós-graduação em Economia do UniCEUB, de Brasília, conta que há outros dois fatores também muito importantes que geram dificuldades financeiras: a confusão entre as finanças pessoais e empresariais, e a falta de planejamento. “No primeiro, muitos empresários acabam pagando as contas, seja pessoal ou empresarial, na conta que possui dinheiro próximo do momento do vencimento, o que pode gerar complicações legais seríssimas. Já no segundo, por não se planejarem previamente, muitas empresas podem enfrentar momentos difíceis apenas por não terem feito uma reserva para momentos de baixa demanda ou até mesmo por realizarem gastos e investimentos sem considerarem a situação do fluxo de caixa projetado”, diz.

 

O que fazer quando a crise chega

Para Menezes, em momentos de turbulência financeira a folha de pagamento deve ser priorizada, porque assim se mantém o consumo. “O seu funcionário vai a um restaurante e vai consumir, e o funcionário do estabelecimento também precisará consumir um produto seu, esse ciclo é natural de compra e venda e precisa ser mantido. Desse modo, a folha de pagamento é primordial. Em seguida é necessário negociar prazos com fornecedores, tentar ao máximo um prazo maior para pagamento. O que deixaria por último lugar são os custos com aluguel, luz, água, levando ao máximo o que der mais para frente para que a empresa não se descapitalize e perca oportunidades de ganhar dinheiro ou apenas manter o que tem nesse período difícil”, ressalta.

Já Brocchi explica que há algumas estratégias para melhorar a saúde financeira de uma empresa que esteja passando por dificuldades. “O objetivo final sempre deve ser reduzir gastos e aumentar receitas. Na redução de gastos o foco é descobrir quais são os gastos que geram menos impactos nos clientes. Desta forma será possível minimizar os impactos nas vendas. Já na expansão da receita, podem-se buscar novos nichos de mercado, como, por exemplo, nos serviços delivery ou personalizados. Neste caso, encontrar setores semelhantes aos que a empresa já atua é interessante, uma vez que podem demandar poucos ajustes na estrutura atual de funcionamento. Outras boas alternativas também são focar em produtos mais rentáveis e contratar empréstimos, desde que bem analisados e planejados”, pontua.

“É preciso ser realista quanto às atitudes que podem e devem ser tomadas numa reorganização financeira, e para resolver os problemas deve-se ter em mente o aumento das entradas e/ou a diminuição dos gastos. É o momento de cortar custos e transformar estoques em disponibilidades, ou seja, buscar estratégias de vendas, fazendo uma análise do custo da dívida (quando houver) para determinação de novos preços de venda, se for o caso. Em situações em que o custo da dívida é muito elevado, é possível ainda que uma margem menor de lucro nas vendas seja compensatória para arcar com esse custo que se acumula mais rapidamente”, conta Keylla Dennyse.

 

Como se organizar financeiramente melhor

O planejamento financeiro de uma empresa deve ser feito considerando o modelo de negócio de cada uma e a expectativa de variação na demanda. “Deve-se compreender as particularidades e diferenciais do negócio de forma a adaptar o plano para potencializar os resultados. Pode-se pensar, por exemplo, que uma empresa, a qual  possui o atendimento como diferencial, não poderá prever reduções de custos em áreas que o afetem. O planejador deve analisar os custos fixos e variáveis, bem como as receitas. E por fim, realizar diversas projeções acerca do futuro da empresa, alterando premissas do plano financeiro para compreender o impacto no fluxo de caixa.
O que dita a periodicidade de um planejamento financeiro é o seu ciclo operacional. A papelaria possui um ciclo de poucos meses, acredito que um planejamento de 2 anos com revisões semestrais seja adequado”, afirma Brocchi.

Para Dennyse, de modo geral, como todo planejamento financeiro, deve ser observada a situação financeira atual, com projeções e metas atingíveis, levando em conta a cadeia de distribuição, o preço de venda ao consumidor, fluxo de caixa, prazos de pagamentos/ recebimentos e a estratégia de faturamento. “Não acredito que exista uma periodicidade padrão, o que se sabe é que o planejamento é um processo contínuo e atualizado ao longo do tempo, não devendo passar períodos superiores a um ano sem ser revisto”, contextualiza.

Para Menezes, um ponto-chave para a organização financeira é a contratação de um sistema tecnológico para facilitá-la. “Existem empresas que ainda trabalham na planilha Excel, e a maioria não consegue ter um controle inteligente, pois é o próprio empresário que faz e ele não consegue acompanhar tudo, seja por falta de conhecimento, tempo ou paciência. Hoje temos muitos sistemas para auxiliar nesse processo, como Nibo, Conta Azul, entre outros. Neles basta o usuário alimentar as tecnologias com as informações da empresa, até a integração bancária é feita automaticamente. É possível organizar sabendo o que pagou, o que recebeu, ter uma perspectiva de crescimento, além de colocar as antecipações de cartão de crédito, envios de boleto, e assim em diante”.

“Outro ponto importante é o comprometimento do dinheiro da empresa nos custos.
No lucro presumido, por exemplo, o ideal é que seja repassado pelo menos 8% ao sócio. O ideal é que inicialmente a empresa não passe dos 90% comprometidos com os custos, seja em aluguel, água, luz, marketing, compras etc. Mas a conta é simples: quanto menos a firma comprometer os custos com o faturamento da empresa, maior será o percentual de lucro. Ou seja, a estratégia fundamental para que isso aconteça é um bom planejamento financeiro”, finaliza o sócio da Rianelli Melo Soluções Contábeis.

 

3 dicas para manter a saúde financeira em dia… e evitar falências, por Raphael Brocchi

Ter uma boa estratégia de negócio. Não há sucesso financeiro sem um bom produto ou serviço.

Contar com uma boa organização dos dados financeiros. As informações financeiras precisam ser organizadas, confiáveis e disponíveis, caso o empresário queira tomar boas decisões.

Assumir a previsibilidade. A empresa precisa saber quais possíveis fluxos de caixa são esperados no futuro.

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